sexta-feira, 14 de março de 2014

                                               
                                                  Perpétua

                   Tudo tem um motivo de ser. Nada acontece por acaso.


O céu em poucos minutos escurecera. As estrelas brilharam na falsa noite quando o sol na autoridade de rei permitiu a lua lhe fazer sombra; sinal de agouro entre muitos, inclusive Lúcio Lucas Leão que naquele momento, recebia notícias de Perpétua:
- Pai, eu não entendo Deus. Onde Ele está numa hora desta? Se Perpétua morrer eu nunca O perdoarei.
- Lucas, entender os nossos semelhantes já é difícil, imagine as coisas Divinas. Meu filho, você é jovem, tem muito o que aprender, não As questione. Tudo tem um motivo de ser. Nada acontece por acaso.
- Isto não é justo.
Enfurecido saiu da sala resmungando, respirava ódio. Nunca aceitava um assunto sem antes discuti-lo até entender as razões expostas. Depois as defendia quaisquer que fossem as conseqüências.

No dia seguinte, foi até a casa de Perpétua. Na porta do quarto parou e ficou a observá-la sentada na cama. Distraia-se com os pardais que pulavam de galho em galho na alegria da liberdade. A doença interferia nas horas, nos minutos, nos segundos tornando-os mais velozes; o tempo espremido. As forças do vigor da vida pareciam minguar. Rosto pálido, olhos envoltos por anéis escuros, lábios secos. Ainda assim continuava bela:
- Perpétua, posso entrar.
- Lucas! Mais claro que pode, entre, sente aqui perto de mim.
- Trouxe umas coisas pra você, não sei se acertei seu gosto, mas me esforcei.
- E acertou mesmo. Adoro biscoitos, flores. Onde conseguiu estas rosas amarelas, são tão difíceis por aqui! Elas  são lindas.
- Com um japonês que agora apareceu no mercado novo.
- Lucas, você pode chamar a enfermeira pra mim. Eu quero colocá-las num jarro. Espero que durem bastante. Depois você me coloca na cadeira para irmos até o jardim.

Entre um e outro canteiro ela comentava:

- Antes de adoecer todos os dias aguava as plantas.
Gosto de sentir o cheiro das flores, da terra úmida. São cheiros que nos faz lembrar o passado, cheiros da infância. Lucas, você também gosta de observar a natureza?
- Gosto, e ao seu lado mais ainda.
- Tem sido tão bom comigo. A única coisa boa que esta doença me trouxe foi você. Gosto de estar ao seu lado. Quando melhorar, iremos passear.
- Sim, iremos à praia.
- É mesmo. Estou muito branca. Preciso tomar sol. Depois que adoeci poucos minutos fico aqui no jardim. 
- Os colegas vieram vê-la?
- Não, só você. Acho que eles têm medo de mim.
- Que besteira, Perpétua. Não vieram porque, quase todos, ficaram em recuperação. Eu e mais uns quatro ou cinco tivemos sorte, passamos direto. Por isso estou aqui.
- Deixe pra lá. Hoje nada estragará meu dia. Quer namorar comigo?
- É tudo o que desejo. Aguardava uma oportunidade para lhe dizer o quanto gosto de você.

Curvado sobre a cadeira de rodas a beijou. Os olhos de Perpétua se encheram de lágrimas:
- Você costuma rezar?
- Para que falar nisso?
- Eu quero me curar. Eu quero viver.

Embora o céu estivesse sem nuvens e o Sol forte, as mãos de Perpétua estavam frias. Precisava sair dali o mais rápido possível. Ela continuava falando. A voz se distanciava cada vez mais, porém ele nada entendia. E, levantando a voz ela disse:

- Lucas, você está me ouvindo?
- Desculpe. Estava distante, pensava no trabalho que ainda hoje tenho que fazer para ajudar um colega. Ele também vai fazer Medicina. Perpétua, eu preciso ir. Amanhã voltarei nesta mesma hora. Agora, deixe-me beijá-la.

Com muito esforço consegui levantar o corpo e o beijou:

- Obrigada por tudo, Lucas.
-Não há motivo para me agradecer. Amanhã estarei aqui.  

O trabalho de química para o colega foi concluído naquele mesmo dia. Agora quanto mais estudava mais vontade tinha. Ser médico tornara-se uma obsessão. Problema difícil, sinônimo: desafio. Desligar-se de uma questão só com a resposta certa. Um campo aberto para a intromissão do cansaço, do stress. Precisava parar. O relógio bateu meia-noite. Um arrepio seguido por um aperto no coração trouxe a lembrança de Perpétua.
“Será que dormiu ou está acordada, cheia de dores? Paciência, minha querida, em breve ficará boa. Aparecerá um modo de curá-la. Se não for Deus, será um mortal que tornará seus dias mais confortáveis, mais cheios de vida. Para isto, resista. Não se entregue, não se deixe levar pelo desespero. Encontre na doença força. Lute em defesa da vida. Pense em quanto ainda tem para desfrutar e perpetuar sua existência.”

A noite foi angustiante. Na hora do café,  o pai aproximou-se devagar:

- Lucas, não tenho boas notícias.
- Perpétua?
- Sim. Ontem à noite.

De cabeça baixa escutava o que ainda seria dito para machucar, ferir o corpo e a alma.

- Pelo menos deixou de sofrer. Soubemos há pouco.

O desabafo veio forte:

- Por que meu Deus? Por que tirar uma vida tão jovem. Nem quinze anos completos tinha! Que pecados poderia ter?

Saiu da sala sem levantar a vista. Estava desiludido, ofendido, abatido. Queria vê-la, segurar-lhe a mão. Com isso, quem sabe ela não ganharia um pouco de segurança na viagem sem volta. O sangue fervia, formigava o corpo e permitia o ódio incendiar a alma. Sem se conter deixou vir a explosão: “Se é tão poderoso como dizem por que não sai em defesa dos necessitados? Onde está SEU coração? Deixar pessoas inocentes morrerem? Trazer infelicidade aos que ficam? Isto não é comportamento Divino. Porque é DEUS acredita que pode fazer isto? Desta forma também serei UM. Eu me preocupo com os outros. Dedicar-me-ei ainda mais à medicina para LHE provar que sou mais humano. A minha vida pertencerá aos meus semelhantes. Quero proporcionar-lhes mais conforto, mais felicidade, mais paz de espírito.

O caminho para casa foi pela Avenida Beira Mar. Precisava de ar puro. A maré baixa convidava a caminhar sem sapatos. A umidade e frieza da areia massageando os pés, diminuindo as tensões. O Sol logo nasceria. Pouco a pouco o negro da escuridão cedia à cinza, à prata, à luz. Luz que vinha com força, com brilho, de meio dia, de um verão sem nuvem. Estava difícil desviar os olhos daquele esplendor. Atordoado, ouvindo uma voz, caiu de joelhos com a mão nos olhos:
 “Lucas, Lucas, o que queres provar? Por que me desafias? A dúvida é tua inimiga. Fazes a tua parte. Não te preocupes em fazer mais do que podes. Eu cuidarei a partir de onde ficares.”

Outras vozes castigaram o silêncio do culpado:

- Mateus, aquele não é Lucas, que está ali deitado na areia.
- Parece. Vamos lá.
- Lucas, o que faz aqui? Precisa de ajuda?
- Não. Estou bem. Foi só um cochilo. Coisas do cansaço.
- Amigo é perigoso dormir aqui sem ninguém por perto.
- Eu sei, obrigado.
- Até outra hora, Lucas.
- Até, mais uma vez obrigado.
- De nada. Se cuida rapaz.

A manhã se instalou. Trazia o sol limpo a iluminar tudo em que seus raios tocavam. No caminho de casa as palavras continuaram a soar vivas num tom forte e melodioso.
Naquele dia a concentração no trabalho estava difícil. Pela primeira vez estava desanimado, sentia uma sensação de vazio na alma. Seria melhor voltar para casa.

Na manhã seguinte veio o arrependimento:

“A Sua luz, a Sua voz, Sua palavra, trás segurança, nos dá ânimo; Reforça o compromisso com a responsabilidade. Queria agradecer-LHE pelo que nos permite fazer pelo próximo. Suplicar-LHE-ia ainda, sempre nos acompanhar na incansável busca para dar felicidade ao próximo.”

Ainda hoje vejo Perpétua sorrindo como no primeiro e único dia de namoro.

                                                             * * * 

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